Segunda-feira, Setembro 01, 2008
Um conto de identidade

Ele acordou com a certeza."Hoje é meu último dia.", disse em voz baixa.Levantou-se com pressa,pois havia muito a ser feito.Se mirou no espelho e começou as tranformações: raspou os cabelos, o bigode,fez a barba, cortou as unhas. Arrumou uma maleta com a suas roupas sem etiqueta, dinheiro e objetos pessoais. Trancou o quarto e jogou a chave no fogo quente da lareira, juntamente com seus documentos. Sentia-se livre, livre e leve. Sua boca tinha mais aquele gosto de pimenta.Deu uma gorjeta maior para o concierge. Montou uma bicicleta que estava encostada numa árvores na frente do portão.Seu primerio furto.O dono havia de entender, era o seu último dia. Não é fácil mudar de identidade.Pedalou para a estação, com a maleta na garupa. Estava feito criança.Era tão fortificante saber que nunca faria o caminho de volta. Não sentia pena nem dor.Provavelmente só se lembrariam dele quando o dinheiro acabasse."Que arrumem sua própria bufunfa", pensou ele , "que eu não sou fonte,não mais". Haveriam buscas por todas as partes, sseu rosto estaria em todos os noticiários. Só o suficiente para manter as aparências, pois na primeira oportunidade eles dariam as investigações como terminadas e partitiriam para a tão esperada divisão dos bens. Cada um querendo um pedaço maior da pizza.Ele não se importava mais com essses bens todos,esse monte de bagulho que conseguiu perdendo anos de ua vida naquela cadeira giratória, apontando o seu dedo sujo de autoridade. O vento varria as folhas do chão quando ele chegou na estação.Uma voz ecoante de mulher chamava os passageiros do seu trem pelo auto falante.Enquanto subia, tentou imaginá-la, de coque e batom vermelho, uma saia justa na cintura. Entregou o seu bilhete, com seus novos dados. Não olhou para trás. Não voltou nunca mais.






Na verdade, eu estava tentando fazer um texto entitulado "O incrédulo" e estava recolhendo informações faz tempo, mas o máximo que eu consegui foi "um conto de identidade", que ficou bem abaixo das minhas espectativas. Não sei se alguém percebeu, mas eu mudei o layout do blog. Apesar de gostar muito da minha maquinazinha de escrever, a barra de rolagem daquele layout não prestava no iPod, então mudei para esse aqui, bem mais simples.









 


Terça-feira, Agosto 19, 2008
Bolhas

Ela pulava e corria na grama. Ia para longe e trazia cogumelos,pedras e pitangas.
Trazia flores para colocar no cabelo, na orelha do cachorro. Perguntava sobre
fadas e cavalos mágicos, enrolava o cabelo nos dedos. Brincava com a sua capa de chuva vermelha, que
trouxe apesar de o dia estar ensolarado. Fazia piruetas e pulava corda...E ria, ria muito.
Por si só fazia a alegria.Não tinha a mente pesada e obtusa, como a minha. Não tinha preocupações,
prazos ou aborrecimentos. Toda a vida estava ali, nas bolhas que ela fazia soprando um aro com sabão.
Imitava passarinho, comia os morangos do pote...E quando finalmente cansou,veio sentar do meu lado.

-Ah,você está triste!-disse, com sua voz frágil,fininha de criança.
-Não, só estou cansada...mamãe está cansada,só isso.-respondi, pensando se era isso mesmo-Acho que é melhor irmos embora.
-Não, vamos ficar mais um pouquinho...Vamos brincar com o cachorro,só mais uma vez?
-Não, vamos para casa...Chega de diverão por hoje,não?
-Eu não me diverti,mãe.-disse ela, lenvantando e ficando na minha frente
-Como não? Passou a tarde brincando, pulando e não se divertiu?Por que?-perguntei, olhando para cima,nos seus olhos.
-Porque você não se divertiu.-falou, e tirou a flor do seu cabelo para colocar no meu.Amarrou a coleira do cachorro
e fez sinal para que fôssemos logo. Não trocamos mais uma palavra naquele dia.





 


Quarta-feira, Agosto 13, 2008

Suas mãos suavam dentro daquelas luvas brancas, e naturalmente ninguém se importava com isso.O que havia a fazer, pensou ele, tinha que ser fiel àquele uniforme. Dia e noite, sol e chuva, ele teria de estar lá, servindo àquela família, fazendo o possível. Era bem verdade que ele deixou suas marcas na casa. Todos os serviçais sabiam, mesmo com a ordem geral de abafar o caso, que fora ele que ensinara o bebê a falar.E ele o chamou papai.Todos sabiam que ele ensinara Elsa a tocar flauta doce, apesar de ter de falar que foi o professor da banda real.E o que todos sabiam mais, o que lhe rendia os olhares de desdém, o seu caso. Caso ínsipido, forçado, pura obrigação. Quando a patroa chama, é preciso dizer sim, apesar de seus serviços agora serem mais que meros trabalhos domésticos.E agora, ereto como uma tábua, ele fazia a posição de costume, na entrada do salão. Sua dádiva andava pela casa com seu vestido leve, esvoaçante,dando vida a cada flor morta da propriedade. A juba castanha, o sorriso da patroazinha...e havia também o amor. Amor e devoção.Seu coração era brinquedo nas suas mãos, e seu corpo era apenas mais um boneco com que estava cansado de brincar. Nunca poderia chegar perto dela, nem mesmo para oferecer-lhe chá, que madame não deixava. Como queria, poder abrir a gaveta e cravar aquele punhal de prata nas costas daquela que o obriga ás mais difíceis tarefas, ao dizer amor sem amar...Não poderia mais continuar dessa forma...


CONTINUA...